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O ano da santidade Agostiniano Recoleto se termina, porém, a santidade como dom não se enclausura, não se fecha. Em alguns de nossos ministérios foi colocada uma pequena chama simbolizando a santidade que deve estar sempre cultivada em cada um de nós, em nossas comunidades e junto aqueles que bebem direta ou indiretamente de nosso carisma recoleto.
Fr. Danilo José Janegitz, OAR - 13/11/2017

Devemos seguir agora com a chama da santidade renovada, acesa em nossos corações. Outro dia, na segunda leitura do oficio de leituras da solenidade de todos os Santos, São Bernando nos dizia que celebrar essa solenidade nos ajuda a renovar nosso desejo de imitar aos santos. O papa Bento XVI dizia que os santos são constelações que nos mostram o caminho para Deus. Não é justamente esse o objetivo de celebrar todo um ano dedicado a santidade?

            A proposta dessas linhas não consiste em escrever exaustivamente sobre a santidade, nem oferecer um relatório de estatísticas do grau de santidade em nossas comunidades religiosas. Queremos com essas letras oferecer um diálogo, fazer uma partilha daquilo que podemos intuir desde a teologia da vida consagrada sobre o dom da santidade, desde o específico de nosso carisma agostiniano recoleto.

            Falar de santidade individual talvez seja hoje uma aventura difícil, porém falar de santidade comunitária é um desafio maior ainda. Mas, é melhor aventurar-nos do que ficarmos apáticos ante uma realidade que nos convida a refletir. Comecemos!

“In Deum”: A vida consagrada como caminho específico de experiência do divino

            Santo Agostinho em sua Regra nos oferece a base para poder falar da santidade, ou ao menos intuir sobre ela, é o que a nós parece. O motivo essencial para viver em comunidade-fraternidade é viver juntos um projeto de buscar incansavelmente a Deus. Não basta ter os corações e almas unidos, é preciso caminhar com sentido. Não podemos viver o chamado do Papa Francisco a sair, se não tivermos colocado as bases da nossa identidade. Sair por sair não leva a lugar nenhum, ou talvez a um lugar que não é o nosso. Precisamos sair, mas desde nossa identidade profunda, para não nos perdermos. Outra ideia importante é que o caminho para buscar a Deus não se deve fazer sozinho. Podemos parafrasear Fernando Pessoa: Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar, e ao andar juntos, em comunidade de irmãos.

            Essa ideia de fazer caminho juntos para Deus, tem como motivação ou causa profunda uma concepção antropológico-espiritual. O ser humano é entendido como peregrino, caminhante em processo. A santidade como busca de Deus está marcada por um itinerário. E cabe já lembrar que o caminho da santidade não é êxito, mas êxodo. Se fosse caminho de êxito dependeria de nós, de nossos esforços pelagianos. Santidade não é questão de músculos, graças a Deus! Por tanto, é dom.

            O peregrino encontra-se diante da surpresa de Deus, e isso exige tempo, maturidade e conversão. Pensemos por exemplo em Maria, ela disse sim no momento da encarnação, porém esse sim teve que ir aos poucos sendo discernido, integrado, ruminado para entender, ao menos em parte, os sinais de Deus, guardando tudo em seu coração. De maneira que não só somos peregrinos, somos mistério[1]. Há em um nós um tesouro desconhecido, depositado como herança, não merecido, mas dado. A surpresa de Deus exige de nós discernimento, e ele não existe sem interioridade.

            Se formos capazes de aventurar-nos no autoconhecimento, como fez Santo Agostinho, podemos perceber que em nós há algo mais íntimo que nossa mesma intimidade, que a supera, que vem do alto. Por isso que o caminho de santidade passa pela interioridade, pelo silêncio. Um silêncio que permite escutar uma palavra nova, que nem sempre é a que queremos ouvir; que é dura, mas que dá a vida. O silêncio não evoca solidão, evoca presença, comunhão.

            É preciso abrir os olhos do coração para perceber que a santidade não é uma peregrinação solitária. Fazer uma excursão sozinho não tem graça! A comunidade é chamada a ser santa, a reconhecer-se envolvida pela graça de Deus, pelo mistério de sua santidade.

            Evidentemente há uma distância entre Deus e nós, mas é justamente nessa distância, que nasce o espaço para a fraternidade, ponte entre nós e Deus. O Documento Vida Fraterna em Comunidade nos fala justamente que a perfeita comunhão dos santos é meta na Jerusalém Celeste (Cf. VFC 26). Somos então chamados a viver aqui em baixo algo lá de cima. Por isso somos comunhão de peregrinos que buscam a Deus.

            A comunhão de peregrinos nos abre a ver o outro que vive comigo como irmão que também está em processo, e inclusive a aceitar suas diferenças com misericórdia. Cada peregrino tem um rosto, uma história, um pé mais sensível ou não aos golpes do caminho. Rupnik reconhece que o coração da vida religiosa é a comunidade, mas uma comunidade entendida não como igualitarismo, mas como união do diverso. De Certeau diz que o desejo desenfreado por sermos idênticos por temor a sermos diferentes, é inclusive uma necessidade patológica. Por isso a origem da comunidade é trinitária: integra as diferenças no ser Uno. Cada um dos membros da comunidade parte de um caminho diferente, mas o destino é o mesmo: Deus.

Buscar a Deus juntos

            Chama a atenção que o documento sobre a vida comunitária nos evoca em primeiro lugar o que estamos chamados a ser: fraternidade. Comunidade é um grupo de pessoas com um interesse em comum. Fraternidade é um grupo de irmãos com um pai em comum.

            O irmão é talvez hoje o maior convite para uma vida consagrada em saída. Para viver a fraternidade é preciso sair de si mesmo, dos muros do individualismo que fecha,  para encontrar com o outro, e o totalmente Outro que nos une. A fraternidade é mística, mística de pés no chão, porque é o sinal palpável que diz que o Reino de Deus está próximo. A fraternidade para A. Cencini, floresce quando, aos poucos, consegue integrar as diferenças e descobrir as semelhanças: “A comunidade na qual se procura Deus juntos é fraternidade que testemunha a beleza da consagração e atrai poderosamente, porque se busca a Deus em conjunto. E é, desde já, comunhão de santos” (Cencini, p.64).

Carisma: Partimos de estradas diferentes, mas o ponto de chagada é o mesmo

            Já vimos que é na busca do divino que cresce a fraternidade, o carisma é como a estrada que percorremos. A vida fraterna é na verdade a irmandade de pessoas, que mesmo sendo de diferentes lugares, falando outros idiomas, comendo comidas com temperos diferentes; percorrem a mesma estrada. Mesmo estando em uma mesma comunidade pessoas até opostas no que se refere ao estilo pastoral ou cultural, há uma identidade carismática, não se escolheram, mas foram escolhidos para um mesmo projeto de vida evangélico-carismático.

            O carisma de uma congregação religiosa nada mais é do que um projeto arquitetônico que sustenta o edifício comunitário para ser edifício de Deus:

“Na base de um projeto comum de consagração existe um idêntico chamado de Deus, porque é vinculado a um mesmo carisma e, por isso, orientado para um mesmo modo de ser, de rezar, de fazer apostolado, de viver a fraternidade, inclusive a mesma identidade e santidade. O carisma religioso é, efetivamente, a revelação do eu, o nome que Deus me deu, aquela específica semelhança com Deus que sou chamado a expressar e na qual consiste a minha plena realização e santidade” (Cencini, p.43).

            Temos então, desde o nosso carisma, o mesmo projeto, mesmo ideal de santidade. O carisma não é mais que um método, um caminho espiritual experiencial, uma pedagogia da busca de Deus que nos faz sentir-nos membros de uma mesma família religiosa.

            Como buscadores de Deus temos para essa busca o mesmo método, para celebrar a mesma experiência de Deus vivida pelo fundador e por muitos irmãos do passado.

            A vocação última de todo cristão é a santidade. A vida religiosa é na verdade uma forma qualificada de santificar-se em conjunto. Uma santidade construída em comum, a partir da pertença a um determinado carisma.

            O pior que pode acontecer a uma comunidade não é o pecado solitário de algum membro que se desvia do caminho, mas a santidade solitária. Evidentemente é um sonho tudo isso, mas não é impossível a santidade de uma comunidade. Pensemos em nossos mártires de Motril, por exemplo. Parece que não é um sonho impossível ou utópico, ainda que a santidade nos venha pelo martírio. Em comunidade ou nos santificamos todos juntos, ou ninguém se santifica.

O outro como céu ou como inferno

            Ninguém disse ainda que viver em comunidade é fácil. Pelo contrário, é sempre um desafio, e porque não dizer, em alguns casos verdadeira pedra de tropeço. Porém a comunidade que se transforma em fraternidade é um testemunho de que é possível chamar de irmão alguém que não está ligado a mim pelo sangue. A fraternidade aparece como um grupo de pessoas humanas que habitam unânimes em uma mesma casa, porque Deus é quem está unindo as diferenças. Somente desde a fraternidade, mais que da comunidade, pode emanar aquela força capaz de romper com todo poder centrífugo diabólico que tende a separar e dividir, porque o Espírito aglutina.

            É então fundamental conviver com os pecados e virtudes do irmão. Evidentemente depende mais de mim do que do outro que ele seja em minha vida céu ou inferno, ainda que costumamos pensar que é o contrário. Já dizia algum psicólogo, se não estamos equivocados era Freud, que o que me incomoda do outro diz mais de mim do que dele.

            É importante escutar e acolher ao irmão, e é importante também que nos escutem e nos acolham. Ouvir, e ouvir sem julgar, é talvez hoje o maior desafio para uma verdadeira fraternidade. É triste quando em nossas comunidades não há espaço para que os irmãos partilhem sua experiência de Deus. O dom guardado somente para si não se faz vida, pelo contrário, definha, estraga, perde o sentido. É preciso ir aprendendo devagar a partilhar a busca de Deus. Temos geralmente um caixa comum da comunidade com nossas economias, porém seria significativo montar um caixa comum, ou um banco comum de bens espirituais, já que o Senhor é nosso único Bem. Se torna urgente, um investimento comunitário espiritual.

            Os aviões têm em seu interior a famosa caixa-preta, que registra os vestígios e fases do trajeto. É triste que em muitas comunidades a espiritualidade individual fique escondida. Não seria interessante colocar em comum aqueles vestígios e fases do trajeto espiritual da pessoa para Deus, e de Deus em direção a pessoa? É preciso ter muita coragem para partilhar nossas experiências mais profundas. Santo Agostinho fez esse processo e nos deixou um patrimônio humano-espiritual magnífico. As Confissões é uma espécie de caixa-preta onde está registrado seu itinerário espiritual.

A verdade é que expressamos a Deus para muita gente, mas raramente expressamos a Deus em nossa comunidade! Talvez porque nossas palavras não nasçam do silêncio, mas da agressividade, ou porque, o que seria pior, não existem espaços para falar das experiências mais profundas e fundantes em nossas casas. Outro dia uma religiosa brasileira nos contou que em sua congregação criaram uma nova pastoral para animar as comunidades religiosas e denomina-se “conversa na varanda”. Essas irmãs se reúnem uma vez ao mês em uma varanda e ali se logra um espaço para falarem delas, de como estão, o que estão experimentando, seus desafios, limitações, conquistas e em definitiva, para falar de suas experiências com  Deus. Nos parece uma boa intuição para a vida religiosa que as vezes cai no ativismo pastoral desenfreado e deixa de lado o mais sagrado: a partilha de Deus e a partilha daquilo que Ele tem realizado em nós.

            Não vamos nos iludir, existe em nossas comunidades mais pecadores que santos. Porém o primeiro passo é reconhecer-nos pecadores. A misericórdia de Deus nos faz perceber que mais que irmãos pecadores, em nossas comunidades estão irmãos perdoados. Porque Deus continua fazendo sua obra em nossa miséria, e apesar dela.

Fariseus e publicanos

            Dentro de cada um de nós há um pouco de fariseu e de publicano. Podemos dizer de outra maneira: em nós está o santo e o pecador. A parábola evangélica (Cf. Lc 18, 9-14) expressa não somente um relato de dois homens que vão ao templo, mas de duas atitudes, duas formas de encarar a Deus, presente em toda pessoa humana.

            A questão mais profunda é que nos encontramos no altar com um amor que desde sempre nos perdoou, e que se antecipa ao nosso erro, que é infinitamente maior que nossas fraquezas humanas. De maneira que nossa vulnerabilidade se torna lugar de presença do mistério da graça.

            Diante de Deus não podemos ofertar mais que nossa miséria humana. Nossa pobreza diante de sua oferta fica ainda menor. A santidade não é questão de músculos! Basta esperá-la com sentido de gratuidade, abandonando toda nossa presunção. Já pararam para pensar que os patrimônios físicos adquiridos por nós para mostrar o quanto somos bons, fomos perdendo com o tempo? Por outro lado, aqueles patrimônios onde os religiosos tinham que ir contando moedas para construir, ainda continuam em pé! Mas a questão mais importante: as maiores experiências de Deus não se dão quando nós colocamos muito, mas quando nós colocamos o nosso nada, porque aí a obra é dele e não tem o risco de ser nossa. No fim, os projetos meramente pessoais, se fraguam, porque nós fraguamos.

            Amedeo Cencini nos fala de uma teologia do nada. Elias pede à viúva no Templo algo para comer, ela oferece tudo o que tinha sobrado para uma vida já perto do fim, e acontece a riqueza inesperada. O sinal das bodas de Caná revela que quando acabou o vinho, o milagre acontece. A mulher samaritana busca água no poço porque está vazia, e encontra com aquele que é capaz de completá-la. O filho pródigo que gastou tudo o que tinha reconheceu que somente o abraço do Pai é capaz de fazer com que ele se sinta preenchido. Os primeiros discípulos pescam a noite toda sem conseguir nada, mas quando Jesus chega, a pesca é milagrosa... Há infinidades de exemplos, inclusive em nossa história recoleta, que o vazio se torna espaço da benevolência divina. Isso mostra que o caminho de santidade passa por nossa fraqueza. Somos ao mesmo tempo fariseus e publicanos, santos e pecadores!

Somos pecadores perdoados

            Reconhecer-nos pecadores não é difícil, nem absurdo. Porém reconhecer-nos perdoados é algo que nos descoloca. Deus está aí sempre. Sempre está nos esperando, nos cuidando e nos amando. Para Lewis a instropecção psicológica nos revela que o receber é mais difícil e talvez mais santo que o dar. No fundo está nosso orgulho e resistência diante de um dom imerecido, mas real. A experiência de sermos pecadores perdoados pode ser bem expressada nessa parábola rabínica:

 

Cada um de nós está amarrado a Deus com uma corda.

Quando você comete um pecado, a corda se parte.

Mas logo que você se arrepende Deus faz imediatamente um nó e a corda fica mais curta: aí você se aproxima um pouco mais dele.

Assim, de pecado em pecado, nó após nó, nos aproximamos sempre mais e chegamos mais cedo ao coração de Deus! (Cencini, p. 105).

 

            Quando nos encontramos com o Deus misericordioso nosso coração se enche de misericórdia. Somente quem se reconhece pecador perdoado é capaz de perdoar os pecados dos irmãos! Daqui nasce a com-córdia (um só coração).

Cor unum in Deum

            O coração no sentido Bíblico é mais que um órgão, é muito mais que sede de emoções e sentimentos. O coração é o centro da pessoa, onde ela se integra. Ser concordes, é entrar no coração do outro, mas para entrar no coração do outro é necessário entrar em nosso próprio coração. Muitos religiosos precisam regressar ao coração, reconhecer suas paredes e seus subterrâneos. Precisamos comprar para nossas comunidades um estetoscópio para identificarmos que mesmo que pareça que não, ainda bate um desejo de ser pessoas de coração, misericordiosas. Mais que companheiros (aqueles que compartem o pão), devemos hoje buscar sermos com-cordes (pessoas que pretendem manter os corações juntos). Isso nada mais é do que a chamada Agostiniana: Cor unum in Deum.

“A comunidade religiosa deveria ser comunidade de pessoas com-cordes, companhia de pessoas que não apenas partilham o ‘pão do caminho’, mas que pretendem literalmente manter os corações juntos, isto é, ‘um só coração’; pessoas que abriram uma à outra as portas do próprio coração a ponto de ter os mesmos sentimentos, sobretudo para partilhar um mesmo anseio à mesma santidade, aos mesmos sentimentos do Filho”. (Cencini, p.107)

Da comunidade à Fraternidade

            No último Capítulo Geral, o Papa Francisco nos exortava a sermos criadores de comunhão. Criar comunhão é uma experiência que brota não da comunidade, mas da fraternidade. Somente a fraternidade é capaz de olhar para fora. A comunidade é perigosa, porque nos faz olhar apenas para os nossos, os de dentro. A fraternidade abre os horizontes, porque temos um Pai-nosso.

            A experiência da oração do Pai-nosso nos abre a contemplar o outro como irmão ainda quando fala outro idioma ou tem outra cor de pele. Daí que nos tornamos irmãos e começamos a saborear não só um coração, mas também uma só alma. A alma é a vida. Ter uma só alma significa compartilhar o mesmo sopro de vida.

            Ser uma só alma significa ser schola sanctitatis, já que a “comunidade religiosa é a sede e o ambiente natural do processo de crescimento de todos, em que cada um se torna corresponsável pelo crescimento do outro” (VFC 43).

            A fraternidade nos permite tornar-nos santos juntos. Significa viver de verdade como irmãos na busca de Deus e no serviço apostólico, na partilha dos bens materiais e espirituais. A fraternidade nasce da partilha do bem que traz o outro e a olhar com misericórdia para o seu mal, sem julgar nem condenar aquele que o Pai colocou perto de mim como irmão (Cf. Cencini, p. 121). 

            Se queremos passar da comunidade a fraternidade temos que investir em um caminho que passa pela humanidade de seus membros, suas crises, fraquezas e contradições.

            Não adianta amar os sonhos de santidade ou fraternidade, se não passamos pelos irmãos que Deus colocou ao nosso lado. O outro não é um estranho que vive na mesma casa, ou um inquilino que vem passar um tempo e vai embora, mas alguém que nos desperta ao encontro com o Deus que habita nele. Somos chamados a uma fecunda vida fraterna em comunidade.

Da fraternidade a santidade

            Não há dúvidas que a fraternidade conduz a santidade. A fraternidade é uma comunidade orquestrada, onde cada um sabe que tem ali sua função, mas que essa função se torna harmoniosa apenas quando conta com o outro.

            A fraternidade é como essa orquestra onde é preciso se adaptar ao tempo do outro, aos seus silêncios, erros...sem ficar presos a uma partitura, mas sendo capazes de improvisar quando o vento virar a página, já que acidentes acontecem.

            Juntos podemos exprimir a mais bela harmonia e beleza.

Da fraternidade, brota a sálvia da criatividade, possibilidade, maturidade e felicidade contra todo vazio de sentido, porque oferece horizonte, oferece santidade. Não podemos nos perder nos discursos de comunidade, é preciso apostar na Fraternidade como verdadeiro caminho para a santidade.

Não cabe dúvida que em muitos consagrados hoje vemos um exemplo e um caminho claro de santidade. Porém temos que nos perguntar porque alguns âmbitos comunitários hoje não são espaços para a santidade. Dizia Amedeo Cencini que essa era precisa de santidade comunitária. Não podemos renovar os institutos por mera questão de reagrupamento. Nós não somos um time de futebol escalado para ganhar. O nosso desafio não é ter êxito, mas ser êxodo. Se renovarmos as raízes das pessoas, renovaremos nossas comunidades em fraternidades que conduzem a um verdadeiro caminho de santidade.

Terminamos essas linhas com a exortação do Papa Francisco[2] para que sejamos inquietos de coração como Santo Agostinho:

“Agostinho não se detêm, não se acomoda, não se fecha em si mesmo, como aquele que já chegou à meta, mas continua o caminho A inquietação da investigação da verdade, da busca de Deus, torna-se a inquietação de o conhecer cada vez mais e de sair de si mesmo para dar a conhecer aos outros. Nomeadamente, é a inquietação do amor”.

O ano da santidade nos convida a seguir buscando, a seguir sendo criadores de comunhão, abertos ao dom da fraternidade e à Verdade. Continuemos nosso caminho se santidade sendo homens buscadores de Deus. Para que queremos a vida fraterna em comunidade se não for para sermos santos?

 

 

Belém-PA, 13 de novembro de 2016

Festividade de todos os santos agostinianos recoletos
 

[1] Cf. ÍMODA, F. Psicologia e mistério. O desenvolvimento humano. São Paulo, Paulinas, 1996, p. 295.

[2] Papa Francisco na missa de abertura do Capítulo Geral da Ordem de Santo Agostinho, Roma, 28 de agosto de 2013, In: CIVCSVA, Alegrai-vos. Carta circular aos consagrados e às consagradas. São Paulo, Paulinas, 2014, p.24.

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